sexta-feira, 8 de julho de 2011

                                           Avançar é preciso                     



Um fato saudável. Na linhagem da mais generosa tradição do pensamento marxista criador, Renato Rabelo (1) levantou questões fundamentais acerca do futuro do movimento revolucionário, essencial a um futuro exitoso para a humanidade e o Brasil. Sua pedagógica intervenção coincide com um momento nacional que requer das forças avançadas uma inteligente postura diante das tentativas de glorificação de um nebuloso passado derrotado no plano eleitoral com a contribuição do PCdoB.


Ao considerar “indispensável manter a identidade comunista e ao mesmo tempo atuar no curso real da luta política” numa “realidade de defensiva estratégica e numa fase de acumulação de forças num sentido revolucionário”, Rabelo examinou os desafios da atualização do pensamento marxista e as alterações na correlação de forças no mundo. 


Quando é avaliado o papel da China e dos países emergentes nas circunstâncias da profunda crise dos EUA, Europa e Japão, aflorou-me à memória uma entrevista realizada (ao lado de José Carlos Ruy) com um dirigente do PC da China em dezembro de 2001 – durante o 10º Congresso do PCdoB, realizado no Rio de Janeiro. O comunista chinês ali tangenciou a possibilidade de restauração da bipolaridade e exaltou as excelências de um mundo multipolar. Foi também no Rio, quase dez anos depois, no recente Encontro Internacionalista realizado na UFRJ, que Renato pronunciou sua esclarecedora conferência que confirma tais rumos. 

Novo ciclo, nova influênciaÉ nas circunstâncias dessa “nova realidade internacional e de mudança do cenário nacional, levando-se em conta o ciclo político aberto por Lula e continuado por Dilma Rousseff”, que o Brasil é promovido a “uma nova dimensão” também no quadro mundial, realçando-se, no pensamento de Renato Rabelo, “a importância de atualizar a teoria revolucionária”. É quando o movimento comunista “começa a recuperar sua influência no processo de acumulação de forças (no sentido ideológico, político e prático da influência concreta na sociedade)”. Uma reflexão assim posta é um vigoroso sopro renovador num país que vive hoje um ambiente auspicioso, mas ameaçado, aqui ou acolá, pelo velho pensamento neoliberal que busca a estagnação e a imbecilização da política. 


Por vezes, tacitamente assimilado pela fase inercial que sucedeu ao desaparecimento de circunstâncias e lideranças que marcaram o curso histórico significativo da trajetória republicana – a exemplo de João Amazonas de Sousa Pedroso, Mauricio Grabois, Leonel de Moura Brizola, Miguel Arraes e outros tantos exemplares do pensamento nacional e de extração patriótica e popular. Boa parte deles eliminada com a ferocidade planejada para que nada restasse desse capital político da soberania e do desenvolvimento — voltado para a realização do Brasil como nação justa, igualitária e grande potência no contexto mundial.

FHC: o paladino ocasionalNeste elo, entre as tarefas mais atuais coloca-se uma, muito especial, que trata de resgatar o gigantesco atraso proporcionado pelas quatro décadas perdidas que se remontam aos períodos do regime militar (1964-1985) e neoliberal que acometeu o país (ao longo dos anos 1990 até 2002).São períodos na essência complementares, articulados e siameses, e raros intervalos nos quais trataram de consagrar a transição negociada – que, da Nova República a Fernando Henrique Cardoso, transitando pela vitória de Fernando Collor, já em 1989, lograram barrar a efetivação de avanços a uma transição de ruptura. Um desdobramento cirúrgico à destruição do pensamento nacional alcançado na ditadura.Emblemática da atual presença deste velho pensamento derrotado em 2002, 2006 e 2010, foi a recente (e bizarra) glorificação do mesmo FHC, que reaparece “forçando a barra” como ocasional paladino da (possível) descriminalização da maconha. Mas o que se torna impossível à nação é tragar seu conservador perfil fisiológico entreguista e embusteiro da chantagem inflacionária. 


Em seu conjunto, destacaram-se, neste cenário, sinais dessa pasmaceira plasmada de ternura cínica e que, na plácida “maresia”, ainda subsiste às transformações requeridas e aos avanços acenados nas três recentes eleições presidenciais. Tudo em nome de uma “estabilidade” que custa ao país uma maquiada instabilidade e sua ruptura com o prodigioso passivo construído pela mesma elite estelionatária que “pensou” o Plano Real à “luz” do Consenso de Washington — e, na tradição, aqueles 502 anos de solidão, monopólio fundiário da propriedade territorial, cidades infladas e apartadas, perversa e secular espoliação do trabalho voltada para a acumulação, vandalismo, truculência, miséria e agudas contradições.(1) Renato Rabelo, presidente do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) palestrou sobre “Os desafios dos Partidos Comunistas no século 21” e, no seminário "Governos de esquerda e progressistas na América Latina e no Caribe - Balanço e perspectivas", aprofundou sua análise acerca da natureza, do atual estágio e das agudas repercussões da crise do capitalismo.


Luiz Carlos Antero *

* Desde o início dos anos ‘70 atuou no Jornal dos Esportes, O Globo, Última Hora e Diário de Noticias, nos semanários Opinião e Movimento. Assessor parlamentar no Congresso Nacional desde 1995.

Max Altman: O inconfessável desejo e a realidade


Por acaso os presidentes não têm direito de adoecer? Afinal, estão mais expostos às enfermidades devido a todas as exigências do cargo. Que compostura e dignidade comportam certos setores da sociedade e seus porta-vozes impressos e eletro-eletrônicos quando um presidente se enferma e festejam, mostram satisfação, sabendo que o fato representa aflição e preocupação ao povo que o elegeu.




Que classe de seres humanos são os que desejam, dissimuladamente, a morte de presidentes e políticos que não podem controlar, quando diante das tragédias comuns de nosso dia-a-dia se mostram consternados e piedosos .A direita venezuelana – e isto se pode estender a todas de todos os recantos, em especial de Washington a Madri – pretende conseguir agora, graças ao câncer que acometeu o presidente Hugo Chávez, o que não conseguiu em doze anos: sua derrocada do poder, por qualquer meio. Tentaram a sedição do golpe militar, valeram-se da Pdvsa para paralisar o país, alegaram fraude em disputas eleitorais, arquitetaram múltiplas conspirações para desestabilizar o governo. Não conseguiram. Perderam as ruas, perderam as urnas e perderam os quartéis.

A doença de Chávez desatou uma odiosa e repugnante campanha midiática global que jogou no lixo os últimos resquícios de integridade moral e os princípios que devem nortear o jornalismo: objetividade e verdade. Preferiram entregar-se à manipulação política servindo aos interesses da oligarquia local e à estratégia regional do império. Quem lesse a grande imprensa privada da Venezuela percebia que havia certo regozijo com a enfermidade do presidente, exigindo que Chávez se licenciasse e o vice-presidente Elias Jaua assumisse o Palácio Miraflores. Alegavam os meios de comunicação e políticos de oposição, com base em “informações confidenciais” ou em “relatos do serviço de inteligência da CIA” que o estado de Chávez era terminal, que se havia cometido gravíssimo erro médico de diagnóstico e execução cirúrgica, que o câncer já se espalhara. Enfim, que o presidente não tinha condições de permanecer no cargo e muito menos de governar de Havana, onde estava hospitalizado. 

Fizeram ‘tabula rasa’ do comunicado oficial do chanceler Nicolas Maduro de 10 de junho , segundo o qual o presidente sofrera cirurgia de emergência para limpar um abscesso pélvico e desdenharam a manifestação do próprio Chávez em 30 de junho de que tivera de passar por uma segunda cirurgia para extirpar células e tumor cancerígeno . A respeito da doença do presidente seguem dizendo “segundo as versões oficiais insuscetíveis de confirmação” e que a “localização e gravidade, assim como o tratamento e o prognóstico dos médicos são mantidos em segredo”. Georges Pompidou, presidente da França, morreu de macroglobulinemia de Waldenström, um tipo de câncer linfático, no exercício de suas funções; François Mitterand governou boa parte de seus 14 anos de mandato carregando um câncer na pró-stata; e mais recentemente Fernando Lugo do Paraguai, governa normalmente ainda que portador de linfoma. São alguns exemplos e nenhum deles recebeu o tratamento mórbido de que Chávez é alvo. O regresso de Chávez e a incrível manifestação espontânea que reuniu mais de 150 mil pessoas para ouvir o presidente do ‘ Balcão do Povo ’ do Palácio Miraflores e demonstrar sua imensa alegria consistiram em resposta contundente àqueles que insistem em desestabilizar o governo. 

A reação venezuelana e o império esperavam que o afastamento do cenário político e administrativo de Chávez levassem a uma literal paralisia da ação governamental. Para seu imenso desgosto, no mês que Chávez esteve distante de Caracas, antes pelo giro que incluiu Brasília, Quito e Havana e depois pela internação hospitalar, o governo enfrentou galhardamente o desafio e seguiu funcionando normalmente. Não ocorreu nem ingovernabilidade nem vazio de poder nem paralisia de funções nem crise política nem agitação social como prognosticavam a oposição e seus porta-vozes midiáticos.Insistem agora que as mazelas do país – os descaminhos da economia, a inflação nas alturas, a criminalidade desabrida, a escassez de moradias e o racionamento de energia – se agravaram. São problemas reais, existem e precisam ser combatidos. No entanto, escamoteiam e evitam dizer que nenhum governo do mundo fez tanto em tão pouco tempo pela saúde e educação de seu povo. 

A Venezuela está livre do analfabetismo, mais da metade da população freqüenta alguma sala de aula, todo o povo tem acesso gratuito à medicina preventiva, a Missão Vivenda Venezuela está entregando casas para a população pobre, o instituto norte-americano Gallup situou a Venezuela em 6º lugar de bem-estar do mundo, considerando próspero seu nível de vida atual e expectativas futuras, o PIB cresceu 4,5% no 1º trimestre, caiu a taxa de desemprego para 8,1%, o salário mínimo e a distribuição de renda é o mais alto e a melhor da região, a pobreza foi reduzida drasticamente nos últimos 12 anos.É por tudo isso que o povo venezuelano participou entusiasticamente das comemorações do Bicentenário da Independência da Venezuela, saindo às ruas às dezenas de milhares. Ao vibrar com a parada das forças militares do país, estavam saudando a independência e a soberania atual da Venezuela. Este é, a par da melhoria das condições de vida da população em geral, um dado essencial. Ao abrir o dia festivo de 5 de julho , tendo ao lado os comandantes das Forças Armadas , da Guarda Nacional e da Milícia Popular , o presidente Chávez declarou: “ Não tínhamos melhor maneira para comemorar esse dia que o celebrando sendo independentes como somos, já não somos colônia de nenhum império nem o seremos nunca .”A independência, porém, levou uma década para se consolidar, sendo concretizada finalmente em 24 de junho de 1821 quando as tropas comandadas por Simon Bolívar derrotaram definitivamente as espanholas na Batalha de Carabobo.Igualmente, a próxima década – de 2011 a 2021 – terá por escopo consolidar o processo revolucionário bolivariano socialista. Chávez deve agora priorizar sua saúde, continuar governando mais apoiado em seus auxiliares e lançar-se com ímpeto na campanha eleitoral de 2012.

Sua visão estratégica, seu elã e capacidade política de gerar iniciativas que fortalecem a união dos povos latino-americanos e do Caribe, como a Alba, Petrocaribe, Telesur e diversas outras, fazem de Chávez um protagonista na luta pela total independência e integração de Nossa América.Mas a história ensina também que, ao longo dos próximos anos, faz-se mister que novas lideranças , provadas e capazes , surjam para levar adiante as bandeiras da soberania , da justiça social , da democracia , da paz e fraternidade entre os povos , da mãe-Terra, do socialismo enfim .

* Max Altman é jornalista, advogado e membro da Secretaria Nacional de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores.

Ipea: investimentos em políticas sociais crescem 146% em 15 anos

Os gastos do governo federal em políticas sociais passaram de R$ 219,7 bilhões em 1995 para R$ 541,3 bilhões em 2009, um aumento de 146%, de acordo com estudo divulgado nesta sexta-feira (8) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo os dados, em 1995, os gastos sociais federais representavam 11,24% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Em 2009, o percentual chegou a 15,8%, o maior patamar verificado nos 15 anos analisados.



Segundo o técnico de Planejamento e Pesquisa do instituto José Aparecido Carlos Ribeiro, o estudo leva em consideração áreas como Previdência Social, saúde, educação, emprego e defesa do trabalhador e assistência social, além de setores como alimentação e nutrição, cultura, desenvolvimento agrário, habitação e urbanismo e saneamento. “A discussão de políticas públicas sociais envolve qualidade de vida e como isso interfere na vida das pessoas”, destacou Ribeiro.


Ele ressaltou que, apesar da forte crise financeira internacional e de a economia brasileira ter entrado em recessão em 2009, os gastos sociais federais continuaram crescendo – mesmo com a mautenção do PIB. A explicação do Ipea é que diversas políticas sociais foram aceleradas e intensificadas como parte da reação brasileira à crise. O diretor de Estudos e Políticas Sociais do instituto, Jorge Abrahão, lembrou que a manutenção da política de valorização do salário mínimo, por exemplo, teve impactos diretos sobre o mercado de trabalho e sobre a renda dos trabalhadores, afetando áreas como a Previdência Social e a assistência social.


Os limites de renda para inclusão no Programa Bolsa Família também foram reajustados no mesmo período. “Essas intervenções permitiram, mesmo em um momento de crise, manter a trajetória de expansão das políticas sociais e dos recursos que as financiam”, ressalta o documento. Segundo o estudo, a decisão de sustentar essas políticas públicas também auxilia na recuperação econômica.

Fonte: Agência Brasil

terça-feira, 18 de janeiro de 2011



                                              “Baaria”: lições de história                                     

Cloves Geraldo *

Painel traçado pelo diretor Italiano Giuseppe Tornatore centra-se na luta do proletariado da região de Palermo, e passeia por 50 anos da história de seu país.


Quase uma tradição no cinema italiano, o painel traçado pelo diretor Giuseppe Tornatore em “Baaria – A Porta do Vento”, a partir de três gerações da família proletária Terrenuova, passeia por 50 anos da história da região de Palermo, Sicília. A exemplo de “Novecento”, o afresco de Bernardo Bertolucci, Tornatore dota seu filme de inúmeras sutilezas políticas sociais, culturais, urbanas e econômicas. Cada detalhe da narrativa evidencia as transformações ocorridas no período que vai da monarquia à república italiana do pós-guerra, passando pelo longo período do fascismo (1922/1945), muitas vezes com um corrosivo humor. 

Este humor dota o filme de traço tipicamente italiano. Tornatore usa-o em várias sequências – das travessuras infantis de Peppino no pomar do latifundiário Don Giacinto (Lollo Franco) ao líder fascista que passeia sua farda negra pela praça enquanto o vendedor ambulante faz gracinhas atrás dele. Este recurso que permeia a narrativa atrai o espectador para o caráter dos personagens. A começar por Cicco (Gaetano Aronica), com o qual Tornatore inicia a epopéia da família Terrenuova nos anos 30. Proletário, ele sustenta a família, com a ajuda dos pequenos Peppino e Nino (Ficarra), fazendo todo tipo de serviço.
Através da luta de Cicco e de seus descendentes, Tornatore mostra as relações de classe e a estrutura de poder da época, centrada na Máfia, no Estado (rei Vítor Emanuel, depois Mussolini), nos latifundiários e na Igreja. Em torno deles gravitam proletários de todos os matizes e, por consequência de sua organização, o PCI (Partido Comunista Italiano - 1921/1991), hoje PDS (Partido Democrático de Esquerda). E os novos atores políticos, surgidos com a queda do fascismo no final da II Guerra Mundial (1939/1945): PDC (Partido Democrata Cristão) e a burguesia sucessora da decadente nobreza italiana.
Esta delimitação de espaços políticos contribui para a evolução dos entrechos, iniciados com o brilhante travelling/voo de Pietro, filho de Peppino (Francesco Sciana), sobre Bagharia (Baaria). Num longuíssimo flashback, ele revisita as gerações dos Terrenuova, dos anos 30 aos 60, fechando com humor a história da própria Palermo. Através destes voos, Tornatore destaca a mutação da vila Bagharia rural para a Bagharia urbana de classe média. 
E a cada entrada em cena de uma nova geração de Terrenuova, ele acrescenta novos detalhes: o da permanência da memória e das sucessivas lutas do proletariado. Da primeira nas esculturas que adornam o palácio da desaparecida nobreza, que traduz o passado da cidade, e da segunda na luta de Cicco e de Peppino para organizar a classe operária. Assim, a epopéia de sua família é a da própria Bagharia para alcançar seus objetivos.
Tornatore também usa o romance de Peppino e Mannina (Margareth Madè) para mostrar o quanto estão umbilicalmente ligados. As edificações onde mora o casal vão mudando – da paupérrima casa da sogra, passando por outra mais espaçosa, até chegar à cobertura da maturidade do casal. Há romance, drama, fantasia em “Baaria – A Porta do Vento”, mas o que predomina na epopéia dos Terrenuova é o contexto político-ideológico. Militante do PCI, Peppino se envolve numa série de tarefas para organizar o proletariado, mescladas a sua relação com Mannina e ao humor. 
Numa delas, ele e seus camaradas vão à casa de respeitado militante para que este lhe empreste seu casaco para uma reunião em Moscou, na época de Stalin. É uma sátira ao líder soviético e uma gozação com sua rigidez. Mas ao usar o humor Tornatore termina mostrando o distanciamento do PCI da União Soviética (1917/1991) dos anos 40 até o Eurocomunismo. Uma polêmica que até hoje rende acaloradas discussões. São questões que escapam ao espectador atual, desacostumado aos embates político-ideológicos, nestes tempos de crise neoliberal.
Isto fica evidente numa das mais belas e elaboradas sequências do filme, que trata de questão urgente do Brasil de hoje. De manhã, ele, centenas de dirigentes, militantes, proletários e camponeses ocupam uma área improdutiva, com as bandeiras vermelhas do PCI. Há ameaças, confronto e violência. Daí ele emerge como líder e é eleito para o parlamento local. São os anos de consolidação do PCI na Itália. E é desta forma que ele chegará à maturidade. 
Em meio a este gigantesco painel, Tornatore ainda reverência o cinema italiano do período. Não é pouco para um filme que tem como fio central a paixão de Peppino por Mannina. Teimosos, ela mais que ele, buscam superar as barreiras impostas pela família dela e a atitude do padre que por ele ser comunista reluta em casá-los, rendendo outra gozação de Tornatore com o obstaculador cura e, sem dúvida, com Peppino. Não deixa de ser salutar. Afinal, é preciso rir, ainda que seja de si mesmo. E a história não enseja apenas drama e tragédia. É o que entende Peppino ao arremessar a pedra contra três pontiagudas rochas: além de lutar é preciso acreditar que é possível obter o “impossível”.
* “Baaria – A Porta do Vento”. “Baaria”. Drama. Itália/França. 2009. 150 minutos. Direção/roteiro: Giuseppe Tornatore. Fotografia: Enrico Lucidi. Música: Ennio Morricone. Elenco: Francesco Sciana, Margareth Madè, Monica Bellucci, Raoul Bova.



* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".


                  O ensaio sobre as desigualdades das raças humanas                   


Eduardo Bomfim *


A agenda pós-moderna do século XXI, introduzida como pauta através da grande mídia oligopolizadora, é algo que nos deixa a pensar sobre as coisas verdadeiramente relevantes ao engrandecimento do pensamento da sociedade e de cada um de nós.
Tem sido comum a utilização de índices estatísticos para se determinar verdades, comportamentos na vida social e se baixar decretos, legais ou culturais, de códigos de postura coletivos.

Não que isso venha a ser algo de novo, mas é que ultimamente essa questão assumiu uma dimensão espetacular porque os instrumentos de comunicação e difusão das idéias atingiram proporções incríveis.

O que significa que estamos diante de uma verdadeira revolução tecnológica, mas que também ela em si mesma não quer dizer nada ou até pode vir a ser alguma coisa de tenebrosa se não for acompanhada pela revolução da inteligência. 

E a revolução da inteligência provém da elevação dos feitos do ser humano nas artes, nas ciências e na filosofia, em cada época. É claro que a história da humanidade também é feita de cobiça, atrocidades e guerras tremendas. Algumas dessas guerras justas, em virtude da possibilidade de grandes constrangimentos e opressão contra uma nação ou mesmo contra todos os povos. Portanto a justeza ou não de uma guerra é algo a ser relativizado. 

Mas o que não pode ser relativizado é a tendência das sociedades em transferir os seus diretos coletivos, e os individuais, para a contabilidade de direitos dos Estados pós-modernos. De tal forma que passam a diminuir sistematicamente os deveres dos referidos Estados e a escassearem os direitos dos cidadãos. 

Como também determinadas “comprovações científicas” às vezes não são tão científicas assim porque ou são falsas, ou são superadas pelas pesquisas em permanente desenvolvimento, ou são adulteradas em proveito de ideologias algumas delas não só nocivas como terríveis. 

É o que se vê no Ensaio Sobre as Desigualdades das Raças Humanas de 1855 do francês Gobineau, um dos oráculos da teoria sobre a existência das raças e partindo dessa constatação o determinismo cultural sobre raças superiores e raças inferiores. 

Gobineau, e outros, com o seu estudo “científico” justificou a escravidão e inclusive guerras em nome de um higienismo, no caso o racial, como foi o nazismo. Só a prevalência da inteligência e da emancipação social humana funcionam como antídotos ao espírito da ignorância e da intolerância.



* Advogado, Secretário de Cultura de Maceió - AL

   Fonte: 


                          E a literatura no projeto cultural?                         

Nilton Bobato *

Os sinais dados pela presidente Dilma em seu discurso de posse, deixando claro que o governo federal tratará cultura como um processo de desenvolvimento e atividade econômica, que aliado a fortes investimentos em educação, ciência e tecnologia, constituirá a base da nação que queremos construir, são alvissareiros.

Os primeiros passos da ministra Anna de Hollanda são expressivos, e no universo da simbologia, importantes.

Neste mesmo universo simbólico vale também salientar que a presidente Dilma, em seu discurso de posse, incluiu entre os bens culturais citados a literatura, outro fato inédito.

Estes indicativos precisam ser acompanhados de atos concretos.

A literatura necessita ser tratada como prioridade nas ações do Ministério da Cultura, mas mais do que isso, tem de ser olhada como centro de política de desenvolvimento, como centro de política do tipo de nação que queremos construir. Necessariamente deve fazer parte de ações articuladas de vários ministérios, notadamente a Cultura, a Educação, a Comunicação, o Desenvolvimento Social e o Planejamento.
No universo simbólico que tratamos aqui, os indicativos relacionados ao futuro das políticas para a literatura não estão claros. Falarão alguns, o governo não completou 15 dias, a ministra da Cultura ainda tenta conhecer os prédios e os servidores, etc. No entanto, políticas centrais devem ser sinalizadas nos primeiros dias, pois é nestes dias que se constitui o foco principal do governo.
É querer muito diante dos desafios que o país ainda tem de cumprir na área social? Se olharmos para a base da nação que queremos constituir, o investimento em literatura deve ser tratado no mesmo patamar de prioridade da educação, da ciência e tecnologia e da cultura. A literatura, como arte, é base da constituição de um tipo de pensamento.
Não falo aqui somente no ato do incentivo a leitura, também de fundamental importância, ou de políticas de incentivo ao livro, cruciais para o futuro. Falo do tratamento da literatura pelo Estado como parte da estruturação da identidade nacional, de uma arte, de uma economia.
Foram fortes as ações nos governos Lula na área do livro e da leitura. Constituiu-se o Plano Nacional do Livro, Leitura e Literatura (PNLLL), temos o Fundo Setorial, a Lei do Livro, ampliação do número de bibliotecas, formação dos agentes de leitura, investimentos na área cultural para o livro que saltaram de míseros R$ 8 milhões nos desgovernos do sociólogo para mais de R$ 100 milhões, entre outras.
O Ministério da Cultura ainda precisa constituir investimentos específicos para a literatura como arte, regulamentar a Lei do Livro, reconstruir o Instituto do Livro, entre outras políticas.
No entanto este é o limite do Ministério da Cultura, é preciso urgentemente ampliar as articulações com o Ministério da Educação, com ações como formação de professores mediadores de leitura, abertura das bibliotecas escolares para a comunidade e agentes de leitura.
Já há uma forte participação do Ministério da Educação no PNLLL que precisa ser acrescida de outras políticas de base, notadamente na rotina das políticas educacionais do país e na formação dos professores e funcionários da educação.
Esta articulação, se somadas a ações institucionais de vários outros ministérios constituirá a base de uma política literária realmente efetiva.


* Vereador do PCdoB em Foz do Iguaçu (PR), membro do Conselho Nacional de Política Cultural, professor e escritor.