sexta-feira, 16 de outubro de 2009


ONU  escolhe Brasil por unanimidade para o Conselho de Segurança

O Brasil foi eleito nesta quinta-feira (15) pela Assembleia Geral das Nações Unidas membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU. Foram 182 votos e nenhum contrário, de um total de 183 países votantes. É a décima vez que o Brasil ocupa um assento eletivo no Conselho - frequência só igualada pelo Japão. O país permanece em campanha por uma cadeira de membro permanente, dentro de uma reforma que democratize o Conselho de Segurança.

Foram também eleitos para o mesmo mandato 2010-2011 a Bósnia e Herzegovina, o Gabão, o Líbano e a Nigéria. O mandato dos novos membros é de dois anos - de 1º de janeiro de 2010 a 31 de dezembro de 2011.

O Conselho de Segurança estará composto em 2010 pelos seguintes países: Áustria, Japão, México, Turquia e Uganda (que cumprem mandato 2009-2010); Brasil, Bósnia e Herzegovina, Gabão, Líbano e Nigéria (eleitos para o mandato 2010-11), e os cinco membros permanentes, com direito de veto  (China, França, Estados Unidos, Reino Unido e Rússia).

As prioridades do Brasil como membro eleito do conselho incluem a estabilidade no Haiti, a situação na Guiné-Bissau, a paz no Oriente Médio, os esforços em favor do desarmamento, a promoção do respeito ao Direito Internacional Humanitário, a evolução das operações de manutenção da paz e a promoção de um enfoque que articule a defesa da segurança com a promoção do desenvolvimento socioeconômico.

Mais cedo, antes do resultado, o ministro das Relações Exteriores, Celson Amorim, havia dito que o Brasil se compromete a manter os esforços em favor “da paz internacional”.

Membro fundador da ONU, o Brasil tem tradição de contribuir para as operações de manutenção da paz da Organização. Em 1956, tropas brasileiras foram enviadas à primeira Força de Emergência das Nações Unidas em Suez. Desde então, o Brasil participou de mais de 30 operações de paz das Nações Unidas, engajando nelas cerca de 20 mil homens.

Atualmente, o Brasil contribui com mais de 1.300 soldados, observadores militares e policiais em três continentes. O maior contingente está no Haiti, onde um general brasileiro exerce o comando militar da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah), integrada por 17 países. O Brasil foi membro do Conselho de Segurança em nove biênios (1946-47, 1951-52, 1954-55, 1963-64, 1967-68, 1988-89, 1993-94, 1998-99 e 2004-05).

Com informações da Agência Brasil
16 de Outubro de 2009 - 0h43

“Anticristo”: Da mulher como ser histórico

Cloves Geraldo *

Em filme que trafega pelos gêneros suspense e terror psicológico, diretor dinamarquês, Lars von Trier, põe em discussão a permanência dos arquétipos que bloqueiam o entendimento do papel da mulher na sociedade moderna

“A natureza é a igreja do diabo”, diz Ela (Charlotte Gainsbourg) a Ele (Willen Dafoe) numa das cenas significativas de “Anticristo”, do dinamarquês Lars von Trier. Diz mais sobre todo o filme, que outras frases, não menos emblemáticas da trama. Em princípio pode-se pensar na floresta, com seus intricados códigos e ritos. Depois, com os obstáculos que surgem diante de do psicoterapêuta Ele, a frase expande o significado e o espectador percebe que se trata da natureza humana. Esta sim traz em si o arcaico que domina o ser humano. E emerge, muitas vezes, com uma multiplicidade de conteúdos. Dentre eles, o difícil equilíbrio entre a aceitação do outro e a superação dos instintos primitivos, que a religião ainda enseja. Eles surgem quando Ele mergulha não no inconsciente de Ela, mas no que esta constrói a partir das referências do sagrado e dos arquétipos da sociedade medieval, que ainda sobrevivem.
Pode parecer intricado, hermético, pelo contrário, Lars von Trier (“Dogville”, “Manderlay”) dota seu filme de uma trama cheia de suspense e de reviravoltas que mantém o espectador aceso. Parte de uma sequência quase banal, do casal Ele/Ela (o diretor não dá nome aos personagens) em pleno êxtase, enquanto o filho despenca da janela do apartamento. Uma mescla de inocência e prazer, que redunda em depressão e descontrole. A perda, em princípio, é o centro da trama. Ela é internada. Ele, mesmo com a resistência do médico da mulher, decide cuidar dela. Usa, para isto, o arcabouço da psicoterapia comportamental cognitiva, que aos poucos se mostra insuficiente. Existe sob aquele ser aparentemente depressivo outras camadas a serem desvendadas. E ele só o descobrirá ao levá-la para a cabana que eles possuem em plena floresta. Ali, entre árvores, plantas, rio e animais, cada gesto, atitude e reação irão mostrar-lhe a pessoa antes submersa.

Técnicas de psicoterapia revelam-se insuficientes

Existe uma mulher, Ela, com seus conflitos interiores, gerados pela perda do filho, e outra, mulher, Ela, cujo mundo exterior é revelado pelo entorno: floresta, animais, gravuras, escritos e reações. Enquanto ela luta contra sua depressão, projetando no marido seus impulsos destrutivos, ele ainda entende e tenta ajudá-la a superá-los. Mas quando ele descobre seu outro universo, Ele, ainda que psicoterapêuta; se perde. Seus parâmetros são insuficientes. Ele o percebe ao estar diante da corça em pleno parto, de pé, a fitá-lo; ou ao ver o pássaro, recém-nascido, ser devorado pelas formigas. E a raposa ensanguentada dizer-lhe: ”Reina o caos”. Existem leis próprias da natureza que não se harmonizam ou ao fazê-lo projetam um equilíbrio de difícil compreensão para Ele. Tudo se complica, quando Ele descobre que ela, que pesquisava para escrever uma tese sobre a execução de mulheres nas fogueiras da Idade Média, deixou o trabalho inconcluso.

Ele se vê diante de outra pessoa – Ela acumulou evidências sobre a permanência do arcaico na natureza humana. Tem a ilustrá-lo gravuras, pinturas e escritos. Isto ilustra quem ela própria é: dotada de instintos primitivos, dos quais ainda não se livrou. Vê-se, assim, incapaz de prosseguir o trabalho, pois se defronta com o próprio papel da mulher na sociedade medieval, que, malgradas as conquistas, ainda permanece - de reprodutora, de fonte de prazer, na qual se projetam o fetichismo, o desejo e a castração – esta configurada na ausência de pênis. Ele defronta-se, assim, com o desconhecido, algo para o qual não está preparado – a natureza em sua inteireza é maior e mais complexa do que suas técnicas terapêuticas. O gavião, ao comer o pássaro em formação, o mostra – ali não existe a complacência, a harmonia é ditada pela natureza do gavião – que se alimenta do que está à disposição, sem considerações éticas, morais ou conveniência.

Perda do filho se transforma em ódio

Daí fazer sentido a frase: “A natureza é a igreja do Satanás”. Todas as considerações sobre a construção da sociedade humanista, igualitária, pós-idade Média, caem no vazio. Os conflitos interiores, ditados pelo arcaico, permanecem. Se na sociedade medieval, controlada pela Igreja Católica, o papel da mulher era de ser apenas reprodutora, qualquer manifestação de desejo ou de autonomia, era punido com a fogueira. E a natureza aqui é identificada com o pecado; o que merece ser punido com o fogo, símbolo do inferno, reino de Satanás. Nestes termos o prazer é uma forma de pecado – enquanto o casal o desfrutava, o filho caia da janela. A autopunição de Ela se encaixa plenamente nestes parâmetros. Atestando a incompreensão que Ele, psicoterapêuta, tem da realidade construída (a sociedade de classe, com papéis definidos), mas que guarda seus arquétipos e ethos primitivos.

A incompreensão do papel histórico da mulher, revelado por suas manifestações exteriores (cartazes, desenhos, textos, a floresta e os animais), muda a maneira como Ele vê sua companheira. Aquela a quem queria tratar e curar; passa a ser empecilho para sua sobrevivência. Estabelece-se um conflito de vida e morte entre ambos. Lars von Trier encena-o em sequencias intensas, em que os papéis se invertem – ele que era passivo se torna ativo e vice versa. A paixão se transforma em ódio - um enxerga o outro como inimigo, a quem deve eliminar. Situações adversas à de “Império dos Sentidos”, quando Nagisa Oshima encena a castração, como resposta da amante ao desvario sexual do amado, e Ingmar Bergman a mutilação da genitália feminina, como símbolo da impotência da solitária moribunda, em “Gritos e Sussuros”. Ambos tratam do desejo, do prazer, enquanto Lars von Trier remete o espectador ao conflito entre o arcaico e o papel histórico da mulher.

Psicanalista analisa papéis dos parceiros

O psicanalista Sérgio Telles, em artigo para o Jornal “O Estado de São Paulo” (1) faz um leitura psicanalítica do conflito entre Ele e Ela. “Para a psicanálise, a destruição e a sexualidade são as duas forças em permanente conflito que movimentam o psiquismo. Elas são simbolizadas e estruturadas em dois momentos cruciais – nas vivências primárias com a mãe e, posteriormente, na configuração triangular edipiana. Para que a transição do primeiro para o segundo momento possa chegar a bom termo, é imprescindível que o sujeito passe pela castração simbólica, que o faz sair da relação indiscriminada e fusional com a mãe e aceitar o outro, com suas diferenças, entre elas e da maior relevância, a diferença sexual. Cada sexo passa de forma específica por este processo”.

“A partir deste contexto, no inconsciente, o homem tem dois motivos para temer a mulher. O mais recente em termos de desenvolvimento é o decorrente justamente da castração, cujo terror lhe é evocado pela visão do genital feminino. O outro motivo do temor que a mulher inspira no homem é mais arcaico e não é o medo da castração e sim o medo da aniquilação, da morte. Tal medo decorre de vivências muito precoces adquiridas pela criança no contato com uma mãe imaginada como não submetida à Lei, detentora de um poder absoluto, arbitrário e imprevisível, ao qual ela está completamente exposta em seu desamparo (...)”.

“Assim, quando a raposa diz para Ele que “O caos reina”, estaria se referindo ao caos do reino das mães, o caos da ausência da Lei paterna, o caos das organizações mais primitivas do inconsciente que subjaz sob a superfície consciente, racional, lógica. A enigmática cena final, na qual aparecem muitas mulheres na montanha onde ele está; talvez indique que, apesar de ter ele se livrado da mulher-mãe-bruxa, não pode mais escapar de seu poder, que retorna multiplicado. Não lhe restam mais saídas, está aprisionado no reino das mães, da natureza, da violência e da loucura”.

Filme envereda para o terror psicológico

Nestas sequências definidoras da trama em constante refundir, retirando delas significados que reforçam o entendimento do espectador, frente aos impasses de Ele, Lars von Trier envereda para o terror psicológico. Não se sabe de onde vêm as figuras que brotam da floresta – ele está cada vez mais fragilizado. As ferramentas que o tornavam tão seguro, agora o confundem. As reafirmações dela de que esteve sempre ausente, mesmo quando estava ao lado dela e do filho, se mostram verdadeiras. Ele nunca compreendeu o sentido histórico de seu papel enquanto mulher. Não é o físico, a fonte do desejo, ela é mais do que isto. Neste ponto, a narrativa se bifurca – Lars von Trier, roteirista, reforça o papel histórico dela, mulher, e as mudanças processadas e a processar. Fato para os quais Ele não atentou.

E o terror psicológico perde o sentido. Não é o terror em si, mas o simbolismo deste gênero, que leva ao transcendente, ao que foge ao entendimento de Ele. Lança, por isto, mão do sobrenatural. Justamente o que fazia a Igreja Católica durante a idade Média, ao identificar a mulher com o satanismo, notadamente quando entrava em seu ciclo menstrual. Daí a necessidade de eliminar o satanismo, a bruxaria, a fonte do sangue, e queimá-la na fogueira. Ele termina por chegar à mesma conclusão nestes tempos tecnológicos, confirmando a permanência do arcaico, do primitivo. Ainda que se veja a supremacia masculina no desfecho de “Anticristo”, ela tem um quê de enigma, de desarticulado. Sozinho, Ele é um ser perdido, incompleto. Ele só poderá ser o homem total, pleno, se conviver historicamente com Ela. Do contrário, viverá em permanente estado de perplexidade e ignorância.

Diretor faz novo uso do psicodrama

Nos rostos dos atores, cujos nomes dos personagens foram abstraídos, se estampa a tragédia. Com suas rugas e saliências, eles se entregam à encenação com intensidade. Não uma encenação qualquer; têm se ressaltar cada emoção contida ou desbragada, de horror total ou frustração, de ódio pelo outro ou instante de paixão. O psicodrama, tão usado nos anos 60, ressurge com outra leitura: a de que o naturalismo não se presta à discussão colocada na tela. Isso cria a tensão entre Ele e Ela. Eles se caçam, se agarram e se entregam um ao outro, no exato instante em que também se mutilam. A câmera de Trier os acompanha sem se intrometer, se mostrar, ela registra e registra e registra as reações deles em completa integração com o cenário rústico, descarnado; sendo os grandes espaços tão assustadores, quanto os da cabana onde Ele e Ela se digladiam.

Todas estas questões ilustram a perda, a dor, o vazio, e o desconhecimento que a sociedade tem da mulher, enquanto ser social, histórico. Não é uma tese que busca comprovar seu papel na sociedade moderna, tão só uma atitude do diretor perante a situação de gênero vivida pelas mulheres no Primeiro Mundo. Um tipo de mulher, classe média, cuja experiência é adversa à da africana, da asiática e da sul-americana de baixa renda. Os arquétipos, porém, são os mesmos. Talvez o filme choque alguns segmentos sociais, desacostumados ao cinema de Lars von Trier, dada à crueza de várias sequências. No entanto, é de choque em choque que se evolui – não se pode correr das ondas, quando estão à sua porta. Mergulhe. Vale a pena!


“Anticristo” (“Antichrist”). Terror psicológico. Dinamarca/Alemanha/ Polônia/ França/Itália. 2009. 109 minutos. Roteiro/Direção: Lars von Trier. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Willem Dafoe.
(1)Telles, Sérgio, O Caos no “terrível reino das mães”, Caderno 2, Cultura, O Estado de São Paulo, domingo, 04 de outubro de 2009, pág. D12.






* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".
* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.


Saramago chama Igreja de "reacionária" e acusa Bento XVI de "cinismo"

Roma, 14 out (EFE).- O escritor português e Nobel de Literatura (1998) José Saramago chamou o papa Bento XVI de "cínico" e disse que a "insolência reacionária" da Igreja precisa ser combatida com a "insolência da inteligência viva".


"Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas o absoluto cinismo intelectual" desta pessoa, disse Saramago em um colóquio com o filósofo italiano Paolo Flores D'Arcais, que hoje lança "Il Fatto Quotidiano".
Saramago, por sua vez, encontra-se na capital italiana para divulgar o livro "O Caderno" e se reunir com amigos italianos, como a vencedora do Nobel de Medicina Rita Levi Montalcini (1986).
No colóquio com Flores D'Arcais, Saramago afirmou que sempre foi um ateu "tranquilo", mas que agora está mudando de ideia.
"As insolências reacionárias da Igreja Católica precisam ser combatidas com a insolência da inteligência viva, do bom senso, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só tem interesse no poder", afirmou.
Segundo Saramago, a Igreja não se importa com o destino das almas e sempre buscou o controle de seus corpos.
Perguntado se o pouco compromisso dos escritores e intelectuais poderia ser uma das causas da crise da democracia, o escritor disse que sim. Porém, disse que este não seria o único motivo, já que toda a sociedade encontra-se nesta condição, o que provoca uma crise de autoridade, da família, dos costumes, uma crise moral em geral.
Saramago destacou que o fascismo está crescendo na Europa e mostrou-se convencido de que, nos próximos anos, ele "atacará com força". Por isso, ressaltou, "temos que nos preparar para enfrentar o ódio e a sede de vingança que os fascistas estão alimentando".
A visita de Saramago a Roma acontece a um dia do lançamento do seu mais novo livro "Caim", no qual volta a tratar da religião. EFE


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O ANTICOMUNISMO DA VEJA

Na mesma edição em que reafirmou a sua simpatia pelos golpistas hondurenhos e que criticou o “imperialismo megalonanico” da diplomacia brasileira por garantir refúgio ao presidente deposto Manuel Zelaya, a revista Veja desferiu um ataque primitivo contra vários partidos de esquerda do Brasil. A exemplo do fascista Roberto Micheletti, que disse em entrevista recente que o golpe em Honduras foi dado “porque Zelaya colocou comunistas no seu governo”, a famíglia Civita, dona deste panfleto rastaqüera, também parece que perde o sono com medo do “fantasma comunista”.

“O socialismo não morreu (para eles)”. Com este título jocoso, a revista retomou um dos bordões que inaugurou a onda neoliberal no final dos anos 1980. Na época, Francis Fukuyama, consultor do governo dos EUA, decretou o “fim da história”, argumentando que o socialismo estava morto e que não haveria mais alternativas à democracia burguesa e ao livre mercado. Mas esta bravata não durou muito tempo. O neoliberalismo aguçou as contradições do capitalismo, resultando na queda de Wall Street (o muro dos rentistas) e numa das piores crises deste sistema. Apesar disto, a Veja insiste na sua cegueira ideológica, talvez apavorada com o avanço das idéias marxistas.

Um patético tucaninho

O texto reflete este temor, inclusive nas suas ironias trogloditas. “Um fantasma ronda a América Latina: o fantasma do comunismo. Pelo menos é o que acreditam os militantes de um punhado de partidos nanicos de esquerda que ainda sobrevivem na política brasileira. Para esse pessoal, não há nada mais importante do que impedir que as idéias de Karl Marx sejam devoradas pelo fungo e pelo bolor. Os esquerdistas radicais formam um grupo tão curioso quanto inofensivo”, dispara. O próprio uso de duas páginas da revista, que renderiam uns R$ 420 mil em publicidade, evidencia que a famíglia Civita teme a crescente influência do marxismo na América Latina.

Para confundir seus leitores mais tacanhos, a matéria mistura partidos de diferentes concepções, como PCdoB, PSOL, PSTU, PCO e PCB. Para todos, ela abusa nos adjetivos hidrófobos e pinça frases fora do contexto. Afirma que o PSOL é “um balaio de gatos”, que o PCB é comandado por Ivan Pinheiro, “o terrível”; e que o PSTU prevê que “[a revolução] está chegando e nós estamos preparados”. Quanto ao PCdoB, ela tenta ridicularizar um sensato pensamento do seu presidente, Renato Rabelo. “Quando a União Soviética desabou, houve quem achasse que o socialismo tinha morrido. Que nada. Só alguém sem visão histórica pode pensar assim... O capitalismo levou 300 anos para superar o feudalismo. O marxismo tem pouco mais de 100 anos de existência”.

A “reporcagem” da Veja não apresenta qualquer informação jornalística. É pura ideologização direitista. O seu objetivo é desqualificar as esquerdas. “As idéias disparatadas desses partidecos dão certo colorido à democracia brasileira, nada mais. Ao sonharem com o pesadelo da restauração socialista, seus militantes conseguem apenas criar para si próprios uma imagem folclórica... O socialismo não voltará à vida. Está morto e enterrado”, decreta o repórter Fabio Portela, o mesmo que numa edição de agosto bajulou o governador tucano Aécio Neves. Este patético e folclórico “jornalista”, seguidor de Diogo Mainardi, deve realmente temer o avanço das idéias socialistas! 
 

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Manifesto 2009

Pelo direito de decidir das mulheres

Fatima Oliveira *

É odioso satanizar quem não deseja a maternidade. A liberdade reprodutiva das mulheres é violada de diferentes formas nos países que conservam a excrescência imoral e antidemocrática de criminalizar o aborto, onde também são gritantes as violações aos direitos sexuais - a antiga pretensão de impedir o direito ao prazer.

Um governo que aceita passivamente que um procedimento médico seguro, como o abortamento, seja proibido e criminalizado num país em que o aborto seguro é um privilégio de classe, como no Brasil, merece que nome?

A campanha 28 de Setembro - Dia pela Despenalização do Aborto na América Latina e Caribe lançou o Manifesto 2009, no qual consta que "milhões de mulheres em todo o mundo continuam a sofrer graves lesões e traumas e mais de 66 mil morrem a cada ano em abortos inseguros, e outras são criminalizadas ou presas".

O Manifesto 2009 é um alerta à sociedade e aos governos que destaca os danos a vidas plenas, decorrentes dos impedimentos ao livre arbítrio das mulheres quando necessitam interromper uma gravidez. O chamado à ação "Chega de violações aos nossos direitos" aponta a causa básica da maioria das gestações não planejadas: a irresponsabilidade masculina quanto à sua sexualidade e reprodução.

O documento avalia avanços mínimos na América Latina e no Caribe e centra na análise das ameaças e dos retrocessos - "consequências da pressão de grupos religiosos fundamentalistas e da complacência da maioria dos governos, que se curvam à Igreja Católica e às lideranças evangélicas, ignorando mandatos constitucionais e sua própria cidadania", sabotando assim a laicidade do Estado. Que nome merecem tais governos?

O manifesto exige políticas de atenção integral à saúde para reduzir a morbimortalidade materna; o fim das ameaças de religiosos contra servidores públicos; a erradicação da obediência religiosa de legisladores, juízes e políticos; o direito à informação e aos meios para evitar a gravidez indesejada; a difusão de tecnologias para o aborto seguro; a permanente formação dos recursos humanos dos serviços de saúde para o atendimento ao aborto; e a manutenção do sigilo profissional na atenção às complicações do aborto inseguro.

As feministas do mundo lutam pelo acesso universal aos serviços de saúde; atenção integral de qualidade; direito ao aborto legal e seguro; pela democracia, liberdade e justiça social e pelos direitos humanos das mulheres, incluindo o direito de decidir. Na luta "por uma sociedade que não se cale frente aos abusos contra a liberdade de escolha das mulheres", a que as mulheres conscientes aspiram?

A apenas respeito, pois sonham viver em sociedades nas quais a maternidade seja exclusivamente voluntária. Traduzindo: que todas as crianças sejam desejadas. É odioso santificar a maternidade imposta e satanizar quem não a deseja naquele momento. Eis porque não voto em antiaborcionistas nem para síndico de prédio!

No Brasil, que já vive os ares das eleições presidenciais de 2010, é um dever feminista não sucumbir aos discursos que visam nos engabelar. A defesa do direito ao aborto é suficientemente importante para constar da agenda eleitoral, não apenas pela magnitude de sua ocorrência ou porque ceifa a vida das mulheres com recorte de classe - morrem mais as pobres, as negras e as jovens. No essencial, é porque a garantia da liberdade reprodutiva é um dos esteios dos Estados democráticos. Candidatura contra o direito ao aborto não merece o voto das mulheres que têm a democracia como um valor.

* Médica e escritora. É do Conselho Diretor da Comissão de Cidadania e Reprodução e do Conselho da Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe. Indicada ao Prêmio Nobel da paz 2005.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009




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Walter Sorrentino: "lutamos por um socialismo brasileiro"

 Walter Sorrentino - debate das teses - setembro de 2009Na avaliação feita pelo secretário de Organização do PCdoB, Walter Sorrentino, o caminho para se alcançar esse terceiro salto civilizacional da história brasileira (o socialismo) depende da formação de quadros comprometidos com a linha partidária e que estabeleçam as ligações necessárias entre a direção e as bases. Para ele, sem uma eficiente política de quadros, “o partido viverá um impasse estrutural”.

A afirmação foi feita durante ciclo de debates ocorrido na sede do Comitê Central, em São Paulo, nos dias 14 e 15.
O evento reuniu lideranças comunistas que atuam nos movimentos sociais. Ele defendeu a valorização dos quadros partidários, essenciais para o que chamou de "luta por um socialismo brasileiro" que poderá ser alcançado por meio da implantação de um novo projeto nacional de desenvolvimento para o país.

Língua dissociada da realidade

Ao iniciar sua apresentação sobre política de quadros, Walter Sorrentino fez um breve histórico a respeito da concepção de partido comunista. Ele criticou o fato de muitas dessas organizações não terem levado em conta o contexto nacional de seus países ao buscar a implantação do socialismo. “Os partidos leninistas, fruto da 3ª Internacional – como o PCdoB – foram forjados em função desse pensamento estratégico e tal formato se tornou um paradigma absoluto e universal. Muitas vezes, eles falavam uma língua única, dissociada da realidade de seu país”.

A crítica do dirigente se atém principalmente ao fato de que todo processo de transformação social deve ser historicizado e adaptado às necessidades locais. “Essas formulações acabaram sendo transformadas em normas, que por sua vez tornaram-se cláusulas pétreas. E o tema “partido” tornou-se uma espécie de último reduto de renovação, gerando uma série de dogmatismos”.

Segundo ele, o tema partidário deve estar baseado em uma estratégia e não apenas na teoria. “Devemos organizar o partido para que cumpra uma estratégia, um programa e jamais a estratégia esteve tão amadurecida no seio do PCdoB. A nossa estratégia é combinar a luta democrática e social, patriótica, soberana e antiimperialista como a luta brasileira pelo socialismo; neste sentido, o novo projeto nacional de desenvolvimento é o caminho”.

Segundo sua formulação, o núcleo da estratégia do PCdoB é “alcançar a hegemonia” e o partido “é como um instrumento para construir um bloco político histórico que alcance a hegemonia, dentro do qual o PCdoB também atinja a sua liderança”. O objetivo é “fazer com que os trabalhadores sejam a classe dominante”.

Para isso, salientou, “é preciso um longo processo que engloba a luta política, social e de ideias, luta esta que se trava dentro e fora dos governos, nas ruas e nas academias, na cultura e nas ciências. Essa luta não pode recusar nenhum terreno”.

Dar conta dessa meta exige, conforme constatação do dirigente, “um partido grande, de massas e forte política e socialmente; precisa, em outras palavras, representar o nosso povo”. No partido, a base para se alcançar esse patamar deve ser formada essencialmente pela a consciência e a teoria marxista-leninista e o caráter classista e militante. “Um partido comunista de massas precisa de organicidade desde a base para ter coesão política. Se não, vira um bando de correligionários. Além disso, é preciso uma forte estrutura de quadros que será uma das pilastras dessa coesão e pré-condição para a governabilidade do partido”.

Centralidade da política de quadros

Dentro desse contexto, o documento apresentado por Walter Sorrentino segue estabelecendo a necessidade se investir numa política de quadros que tenha centralidade no projeto partidário. “Isso é uma exigência da vida partidária e não um luxo; política de quadros é a essência do partido”, destacou. Segundo ele, PCdoB é “um celeiro de quadros políticos”, porém há “muita inconstância e muitos não são fidelizados”.

O dirigente ressaltou que “o PCdoB vingou, cresceu e se desenvolveu mesmo com a crise do socialismo e isso é fruto desses militantes comprometidos. Mas precisamos de um novo modo de lidar com os quadros, de galvanizar compromissos. Precisamos de uma multidão de quadros, para liderar nossa luta na sociedade, unir a esquerda para unir o povo”. Ele chamou atenção dos militantes presentes ao debate para a necessidade de se quebrar dogmatismos. “Isso muitas vezes nos leva a querer encaixar a vida numa fórmula pré-determinada”.

Além do combate ao dogmatismo, Sorrentino enfatizou a necessidade de se combater o corporativismo, o liberalismo – “que leva a compromissos frouxos” – e o pragmatismo. “Podemos, com a continuidade do ciclo aberto por Lula, atingir mais de 400 mil membros. E como governa-los?”, questionou. A resposta, conforme afirmou, está no maior investimento nos quadros. “No Brasil, ainda somos muito pequenos. Precisamos crescer num contexto de desmoralização da política, dos partidos e da militância. Precisamos atravessar esse deserto sem desidratar”.

A resposta para esse desafio está, de acordo com o dirigente, nas propostas apresentadas pelo documento sobre política de quadros. Resumidamente, são três objetivos políticos essenciais: lidar com a formação da nova geração dirigente para os tempos atuais e para o futuro; garantir organicidade à militância partidária, com quadros intermediários para organizar o partido desde a base e absorver quadros que não estão na estrutura formal do partido e espalham-se por movimentos sociais variados, na academia, nas artes etc. “Somos um partido perene, secularizado, que não aparece só nas eleições e por isso precisa de militância. Temos de ter uma pauta e uma agenda concreta porque as bases não funcionam no abstrato”, afirmou.

No que tange a formação desses quadros, Sorrentino salientou que é necessário “fidelizar os quadros ao projeto do partido; valorizar a ligação com o partido por questão de consciência e não de moral e, mesmo considerando que somos um coletivo, atentar para as potencialidades individuais”. Os quadros, colocou, “precisam de renovação, de qualificação, de especialização e de representação junto à sociedade”.

Finalizando sua apresentação, Sorrentino concluiu: “mudanças de cultura político-organizativa levam tempo; são batalhas de ideias que se dão dentro do próprio partido. Mas, queremos um PCdoB grande, que se aventure nesse terreno da nova luta pelo socialismo e para isso, os quadros são essenciais”.


De São Paulo,
Priscila Lobregatte

Priscila Lobregatte
 
 
 
Protógenes Queiroz - ato de filiação - 07/09/09
 
Protógenes comemora novo passo




Filiação: O Brasil tem pressa. Temos de agir, reafirma Protógenes

Foi com sabor de lançamento de candidatura que aconteceu em São Paulo nesta segunda (7), Dia da Independência, o ato público de filiação de Protógenes Queiroz ao PCdoB. Mais de 500 pessoas lotaram o auditório da Unip para saudá-lo. Ainda não há definição sobre a que cargo concorrerá, mas ele deixou claro que quer unir diversos setores da sociedade para enfrentar as questões que julga serem as mais graves no país: a corrupção e a desigualdade social. “O Brasil tem pressa. Temos de agir”, disse.

No final do ato, o delegado mais uma vez recebeu a visita de um agente da justiça. Desta vez o funcionário, que preferiu não se identificar, entregou-lhe uma queixa-crime movida pelo atual ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, devido à entrevista dada por Protógenes à revista Caros Amigos em dezembro do ano passado. Naquela edição, o delegado dizia que Stephanes, quando presidente do Banestado do Paraná, teria usado cheque pessoal para pagar fiança (de R$ 500 mil) de Vitor Hugo Nunes, envolvido com lavagem de dinheiro.

“Falei verdades consubstanciadas em provas”, explicou o delegado afastado da PF. E completou dizendo que “os sucessivos os atos de constrangimento têm se intensificado; isso demonstra a intenção desses setores que são minoritários na República. Mas no momento certo, a população vai dar a resposta que essa gente merece; 2010 está chegando”, declarou. Na semana passada, em coletiva de imprensa, Protógenes foi notificado a respeito de reabertura de processo administrativo movido a partir de ação de Paulo Maluf.

Protógenes disse ainda que “está cada vez mais estreito o meu espaço como agente público dentro da Polícia Federal” e que “meu caminho agora é o da vida político-partidária brasileira”. Questionado sobre o foro privilegiado que teria caso se candidate e vença as eleições para o parlamento, declarou: “não sou bandido, sou contra a imunidade parlamentar. Quando serve para proteger contra qualquer ação judicial, não é imunidade, mas impunidade parlamentar”. Ele disse ainda que hoje muitos quadros da Polícia Federal seguem seu caminho. “Diria que 99,9% dos colegas da PF estão imbuídos desse mesmo espírito, haja vista que o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, Cláudio Avelar, também se filiou ao PCdoB”.

“Comunista, graças a Deus”

Falando ao público ainda durante o ato, Protógenes Queiroz brincou: “sou comunista, graças a Deus”. E ressaltou o papel do vereador Jamil Murad em sua decisão de se filiar. “Ele plantou essa semente”, contou. Lembrando ter participado do Grito dos Excluídos, durante a manhã, o delegado declarou que “neste dia 7 de setembro, quero começar meu trabalho para incluir os excluídos juntamente com o PCdoB e diversos setores da sociedade”.

Ao lado de representantes da maçonaria, de católicos e de ateus, o delegado defendeu “amplas alianças” para transformar estruturalmente o país. “O problema é que hoje os recursos não chegam a quem realmente precisa. Estou aqui hoje como quem responde ao chamado daquela música que diz: ‘foram me chamar, eu estou aqui o que é que há’”, colocou, lembrando da canção de Dona Ivone Lara. E parafraseou: “vocês me avisaram para pisar nesse chão político devagarinho”.

Lembrando os pontos de convergência entre os comunistas e a atual gestão federal, Protógenes disse que o “PCdoB cumpre seu papel ao apresentar um projeto de nação ao presidente Lula”. E ressaltou que “a proposta que o presidente encaminhou para o Congresso Nacional sobre o pré-sal consta em resolução do Comitê Central do PCdoB”.

O programa e nada mais

Renato Rabelo, presidente do PCdoB, contou como foi o processo de cerca de três meses que resultou na filiação de Protógenes. “Conversamos abertamente e apresentamos o nosso programa (socialista), não mais do que isso”. Para o dirigente, a “existência do PCdoB é uma exigência histórica”. Ele enfatizou que “não somos uma legenda de ocasião, de eleição, mas um partido que se dedica permanentemente à luta dos trabalhadores, do povo e da nação. Este encontro demonstra a responsabilidade mútua que tanto o partido quanto Protógenes têm com o projeto que defendemos”.

Para Rabelo, o delegado demonstrou que “é uma liderança de ideias, comprometido com o nosso país”. Ele criticou ainda o que julga ser um dos principais problemas do Brasil: “precisamos renovar nossas instituições porque ainda há partes podres, setores antidemocráticos e precisamos limpá-las. Foi isso que Protógenes começou a fazer com seu trabalho na Polícia Federal, uma luta contra os colarinhos-brancos, gente que acumula riqueza à custa da exploração dos demais, da especulação”.

Segundo o dirigente, “Lula iniciou um projeto nacional, mas ainda há obstáculos a serem superados”. Por isso, explicou que “2010 é uma espécie de encruzilhada em que ou o país avança continuando no caminho das mudanças, ou esse ciclo poderá ser interrompido”. Rabelo defendeu a “união de forças avançadas comprometidas com esse projeto” e disse que Protógenes “tem inserção em setores diferenciados da sociedade”. Por fim, colocou que “sua entrada nas fileiras do PCdoB nos fortalece e nos incentiva. Vamos juntos mudar o Brasil”.

Também saudaram a filiação de Protógenes Queiroz a presidente do PCdoB-SP, Nádia Campeão; o ministro do Esporte, Orlando Silva; o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE); a deputada federal Jô Moraes (PCdoB-MG); os deputados estaduais Álvaro Gomes (PCdoB-BA) e Pedro Bigardi (PCdoB-SP); o vereador Jamil Murad, o presidente da UNE, Augusto Chagas; o vice-presidente da CTB, Nivaldo Santana; o presidente da Associação dos Delegados de Polícia de São Paulo, Sérgio Roque e Benedito Marques, da Maçonaria Unida por São Paulo, entre outros.


De São Paulo,
Priscila Lobregatte



Honduras: a diplomacia rancorosa da direita

A camarilha civil e militar que assaltou o poder em Honduras apostava que a demora na solução da crise política levaria a comunidade internacional a "esquecer" o problema. E que o processo eleitoral fajuto previsto para novembro "legitimaria" a presença de seu grupo político no poder. Mas o retorno inesperado do presidente Manuel Zelaya ao país jogou por terra os planos da oligarquia, que agora se sente ameaçada e acusa o Brasil de ingerência em assuntos internos pelo fato de Zelaya ter buscado abrigo na embaixada brasileira.

No Brasil, os golpistas têm apoio em setores da mídia e da direita que, não podendo fazer o que gostariam - defender abertamente os gorilas sob o risco de também serem tachados de golpistas - tentam qualificar a situação como fruto da política externa dirigida por Celso Amorim.

Mas os fatos não combinam com as versões da direita tupiniquim. O mais notório é o isolamento dos golpistas hondurenhos, que não são reconhecidos por ninguém em todo o mundo e enfrentam a exigência unânime pela volta imediata de Zelaya à presidência.

Diante desse isolamento, só mesmo os direitistas mais obtusos, saudosistas das ditaduras militares, defendem publicamente o golpe, ruminando um discurso anticomunista caduco, mas preocupante. Nesse sentido, o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, tem razão ao acusar os que se opõe à conduta do Brasil no episódio como simpatizantes dos golpistas.

A oposição neoliberal alimenta, contra o governo Lula, um rancor sem fronteiras. Os oposicionistas não se preocupam se a bandeira nacional está sendo conspurcada no afrontoso cerco à nossa embaixada em Tegucigalpa. Não lhes comove o risco de uma guerra civil naquele país, nem se incomodam com as graves violações aos direitos humanos, típicas da direita, praticadas pelo governo golpista.

Tentar desgastar o governo Lula é o que importa para nossa direita troglodita. Chega a ser patético ver expoentes do PPS, como Roberto Freire e o deputado Raul Julgmann, ou os senadores tucanos Eduardo Azeredo e Arthur Virgílio, ou ex-diplomatas alinhados com Fernando Henrique Cardoso, atacando a postura do Brasil nesta crise. Parece que o problema não são os golpistas, mas o refúgio do presidente legítimo na embaixada brasileira em Honduras!

Os argumentos toscos da direita mal disfarçam a dor de cotovelo de uma elite que vê o governo do operário Lula assumir uma posição geopolítica jamais alcançada pelos governantes anteriores, principalmente sob FHC. Hoje, o Brasil é elogiado, ouvido e respeitado em todos os principais fóruns e organismos internacionais, e sua liderança reconhecida.

Sob Lula, a presença internacional do Brasil é muito diferente da época em que o chefe do Itamaraty aceitava tirar os sapatos para poder entrar nos Estados Unidos. É por privilegiar as relações sul-sul, especialmente com os países da América Latina, que o Brasil passou a ser apontado como liderança regional, cooperando com governos de caráter popular e progressista da região e rechaçando as velhas práticas imperiais e colonialistas que tanto mal causaram ao nosso continente.

É por reconhecer esta liderança qualificada que Zelaya buscou abrigo em nossa embaixada ao retornar ao seu país. O Brasil não reivindicou essa posição de peça chave no tabuleiro da crise hondurenha. Mas as circunstâncias fizeram com que isso acontecesse. E nossa diplomacia está agindo corretamente ao buscar amplo apoio internacional para ajudar a solucionar a crise no país centro-americano. Com a clareza de que a verdadeira resposta para a situação não depende do Brasil, nem de organismos internacionais, mas da vontade do povo hondurenho, espera-se que este tire proveito deste trágico episódio de sua história para fortalecer sua organização popular e suas instituições democráticas.


Editorial Vermelho