domingo, 24 de maio de 2015

7 desafios para quem quer criar uma startup de educação

Por Carmen Guerreiro

Alexandre Sayad, do Media Education Lab
Em palestra na Bett Brasil Educar, Alexandre Sayad, do Media Education Lab, dividiu sua experiência como empreendedor da área.

Muito se discute sobre como uma carreira em educação é pouco atrativa, pela falta de valorização do profissional. Mas será esse o caso para todos os profissionais de educação? Assim como em outras áreas, o empreendedorismo em educação tem sido a veia da área que faz brilhar os olhos de muitos jovens em início de carreira. É o que explicou Alexandre Sayad, sócio-fundador do Media Education Lab, em sua palestra sobre startups de educação na Bett Brasil Educar na última quinta-feira, 21.

A maioria dos que se aventuram em criar uma nova empresa que alia educação e tecnologia, segundo Sayad, tem menos de 25 anos. E até mesmo por isso, muitas startups falham no início - segundo ele, por falta de experiência de muitos jovens, e defasagem entre expectativa e realidade.

Pensando nisso, o especialista destacou os maiores desafios para quem quer empreender em educação:

1. Educação para todos e para cada um: "A gente sabe que os alunos Pedro, João, José, Maria e Letícia aprendem de maneira diferente, mas temos que ensinar todos eles", observa. "É uma briga de foice, mas talvez o ponto mais promissor das startups é da personalização do ensino, porque é um caminho que não tem volta diante do cenário de tecnologia hoje, e é uma tendência que de fato vai resolver algumas questões que um ser humano sozinho, diante de uma sala com 30, 40 pessoas, não consegue."

2. A lógica de gestão da escola não é a mesma de qualquer empresa. É preciso conhecer seu funcionamento, na ponta. Segundo Sayad, só quem está na sala de aula sabe realmente como a educação funciona.

3. Ter um olhar sistêmico. É importante, para o empreendedor, não acreditar que as inovações são panaceias, ou seja, soluções absolutas para determinado problema. "Se você tem o olhar sistêmico, entender que cada problema é muito complexo e que não vai conseguir acabar com ele todo com uma só tacada."

4. Conhecer outros players, evitar a sobreposição e aprender a colaborar. Para Sayad, é importante tecer uma rede de parceiros, especialmente de fora da educação. "Areja o diálogo", diz. Sobre a colaboração, ele defende que 
não é algo inato às pessoas, e sim uma habilidade. "E é uma habilidade que vc desenvolve na escola."

5. Usar a tecnologia como meio e se apoderar dela: o digital deve ser uma ferramenta, não o objetivo de uma atividade ou projeto pedagógico.

6. Errar cedo e acertar o percurso: arriscar e errar faz parte da educação.

7. Não podemos desprezar a nossa experiência com a educação, mas é preciso ouvir quem está vivendo ela hoje. "A educação é uma plataforma segurada por muitos atores, e um deles é o aluno, que a gente precisa escutar", diz.

sábado, 23 de maio de 2015

Tecnologia: aliada ou inimiga do pensamento crítico?

Por Flávia Siqueira

'Debate analisa se essa ainda é uma questão válida na educação'

A tecnologia é um estímulo ou um obstáculo para o pensamento crítico? Essa pergunta pautou a mesa de debate que reuniu os professores e pesquisadores David Cavallo, Lucio Teles e Christian Di Maggio na Bett Brasil Educar 2015.

Cavallo, pesquisador norte-americano do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e referência no tema, é um entusiasta do uso de tecnologia na educação. Para ele, não é possível desenvolver o pensamento crítico apenas ouvindo - é necessário fazer e criar e, para isso, a tecnologia é essencial.

Ele ilustra com um exemplo típico das aulas de física: é mais eficiente ensinar os princípios do atrito estático em um plano inclinado por meio de um projeto em que os alunos construam um modelo real do que usando apenas desenhos na lousa.

“Nesse caso, o projeto provavelmente não dará certo na primeira vez. Então, o aluno terá que recorrer ao pensamento crítico para descobrir por que o que ele fez não está funcionando e como resolver”, afirma o pesquisador.

Em seguida, o professor Lucio Teles, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), apresentou reflexões de estudiosos sobre a ligação entre pensamento crítico e acesso à tecnologia. Não há consenso: enquanto parte dos acadêmicos veem os recursos digitais como ferramentas cognitivas úteis, outros os apontam como fonte de declínio do pensamento e de superficialidade.

Cavallo afirma que não há como romper com a tecnologia: ela está sendo usada, por bem ou por mal. “A tecnologia é muitas coisas, não é uma só. Tecnologia é o novo, qualquer coisa criada após nascermos.” No passado, por exemplo, a caneta e a impressão tipográfica foram (ou poderiam ser) consideradas novas tecnologias.

É o uso que fazemos da tecnologia, portanto, que está em questão. E, se quisermos ter uma visão menos fragmentada do tema, é necessário fazer um exercício e tentar observar a realidade com os olhos das novas gerações. “Falamos muito em nativos digitais, mas para um nativo digital essa definição dele mesmo faz sentido?”, questiona Di Maggio, consultor e funcionário técnico do Ministério da Educação italiano. “Não, pois é o mundo dele. Decidir entre dizer sim ou não à tecnologia não é um problema verdadeiro.”

A questão, afirma Cavallo, é que a abordagem “industrial” da alfabetização e do ensino em massa não está mais funcionando. Di Maggio argumenta no mesmo sentido: décadas atrás, a escola nos dava acesso a informações que não tínhamos em casa; hoje, o cenário se inverteu – os jovens vão para a escola e não encontram lá o que eles têm em casa ou na tela de um celular.

Mas o cenário brasileiro não é árido como muitos podem pensar, aponta Cavallo. Segundo o professor, não faltam bons professores, boas ideias e bons projetos no Brasil. O problema está na distribuição dessas soluções, que ainda estão longe de chegar a todos.

Por fim, partiu do público uma das reflexões mais claras sobre o tema: não cabe ao professor optar ou não pela tecnologia, mas orientar os alunos sobre como usá-la para construir conhecimento e não cair na superficialidade.