segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

TRÊS FORMAS DE CRITICAR

Por Gabriel Perissé em 08/03/2011 na edição 632 Observatório da imprensa

Critiquemos a educação nacional. Mas há modos e modos de fazê-lo. Um desses modos consiste em lamentar a situação, dando-a como insustentável e insolúvel. O artigo "Como vai a educação brasileira", assinado por Otaviano Helene e Lighia B. Horodynski-Matsushigue, em Le Monde Diplomatique Brasil (nº 43, de fevereiro/2011), segue essa linha, considerando deplorável o nosso sistema educacional. Os avanços, se admitidos, são vistos como insignificantes. Os professores estão desmotivados. Na verdade, a educação não vai.

Um dos pontos críticos e decisivos dessa questão são os baixos salários dos professores do ensino público. Salários indignos desmotivam os que estão lecionando e não motivam novos ingressantes. O salário de um professor de escola pública com diploma universitário equivale, em média, a dois terços do que recebem profissionais de outras áreas com o mesmo nível de escolaridade. Se um jovem economista pode começar sua carreira ganhando R$ 2.500 um professor (mesmo não tão jovem ou não tão inexperiente) poderá receber, depois de passar em disputado concurso público, salário inicial de R$ 1.600.

Constatemos esse fato, que é mesmo incontestável. A crítica, porém, não pode desconsiderar que a esse ponto se chegou ao longo de várias décadas. A gestão do MEC dos últimos oito anos denuncia o mesmo fato e, entre outras ações, criou o piso salarial nacional dos professores (Lei 11.738/08), prometendo auxiliar financeiramente estados e municípios. O fato, porém, é que muitas prefeituras e governos estaduais se recusam a cumprir a lei e, estranhamente, parecem desdenhar a ajuda federal.

A crítica faixa preta

O segundo tipo de crítica vem na forma de exaltação de soluções estrangeiras, insinuando ou insistindo que no Brasil viriam a calhar. André Petry, de NovaYork, envia à revista Vejadesta semana (edição 2207, de 9/3/2011) matéria em que o herói é um educador negro, cujo mérito (inegável) foi sobrepor-se às dificuldades e criar saídas para si e para outros. A mensagem é clara: o grande responsável pelo fracasso dos alunos (norte-americanos, de baixa renda, enfrentando situações de risco social...) são os maus professores. O leitor acabará formulando a pergunta óbvia: por que não esperar que todos os nossos professores façam por merecer matéria semelhante?

O educador Geoffret Canada é faixa preta em tae kwon do e afirma que os alunos precisam de heróis:

"Essas crianças me veem como um gigante, um Superman ou Batman. Num mundo tão frio, tão duro, as crianças precisam de heróis. Heróis dão esperança e, sem esperança, essas crianças não têm futuro. Então, eu faço o papel de herói para elas, mesmo que, para isso, tenha de recorrer a truques baratos."

Para quem conhece o "projeto educacional" da Veja (ver, por exemplo, nesteObservatório, meu artigo "Palpites dogmáticos"), fica evidente a intenção. Começo de ano letivo, observem só o que um único herói pode fazer. Mas tem mais. A revista menciona o modelo das "escolas-charter". Não é a primeira vez. Nem será a última. A julgar pelo fascínio que as "lições de Nova York" exercem sobre o grupo Abril, essa discussão vai longe.

Em suma, se tivermos docentes que lutem direito, saibam competir, sejam administrados por um novo modelo de gestão... a educação irá!

A crítica mundo cão

Um terceiro tipo de crítica, em que realismo, ironia e humor se mesclam, surge em matérias criativas como a da revista Piauí de fevereiro deste ano – "O Brasil é aqui", de Raquel Freire Zangrandi.

Uma narrativa sobre o cotidiano de uma escola da rede municipal carioca. Um documentário cinematográfico em papel. Sem papas na língua. Sem rodeios e sem frases motivacionais. Refletindo a distância infinita entre boas intenções didáticas e a realidade dos alunos e professores. Um buraco diz tudo:

"Às sete e meia da manhã, vinte minutos depois do horário marcado, começa a aula de português. No quadro-negro que hoje em dia é branco, uma aluna passa exercícios sobre classificação de predicados. O quadro tem um buraco de 30 centímetros de diâmetro bem no meio de sua superfície de fórmica. Está assim há algumas semanas, desde que um aluno o alvejou com um tubo de corretivo líquido."

Os problemas na educação crescem a olhos vistos. O rombo no quadro era "oval em agosto", um mês depois "tornou-se retangular". Em outubro, "o buraco aberto no quadro já atinge 1 metro de comprimento". O buraco simboliza o descaso. A lentidão. A inércia. A burocracia. Que prazer haverá em ensinar/aprender fatoração ou análise sintática diante desse buraco negro que está a ponto de nos engolir!?

As três formas de criticar a educação nacional partem da comprovação de circunstâncias que se repetem. Certamente nem tudo é infernal. Nem tudo é fim do mundo. Há registros de bons resultados, escolas em que a educação ainda vai.

Contudo, em diferentes pontos do país, encontramos professores desmotivados, alunos dispersos, violentos, perdidos, gestores perplexos e famílias carentes, ausentes. Um cenário vulnerável a comentários taxativos, cruéis, injustos, exagerados, como o do jornalista André Forastieri, em seu blog: "As escolas brasileiras são uma porcaria, do maternal ao doutorado".

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Gabriel Perissé , Doutor em Educação pela USP e escritor;

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A EFEMERIDADE DA ÉTICA É A SENSAÇÃO DE JUSTIÇA.

''A operação 'Lava Jato' deveria ser chamada de 'Mata Rato'' pois há um imenso descontrole secular de roedores devorando a estrutura do Estado, sem estar dentro dele.''


No Brasil os vultosos números da corrupção são de igual proporcionalidade ao que a imprensa suja recebe ilegalmente para estimular pânico e golpe de Estado há mais de uma década. Ou o que juízes e delegados recebem para encenar fatos, boatos, e enfeitar cenários. 

O que há de novo? - Nada, se todo processo de investigação virá espetáculo midiático de fatos contados, boatos narrados, cochichos ameaçados e privilégios à ''delatores safados''. Como diria o escritor Fernando Veríssimo 'aqui o fundo do poço é um pouco mais além'', (e não é no volume morto), mas no 'pré sal’ vivo até demais do interesse posterior. 

Aqui corrupção é um poço raso de doze anos, queria ver a busca nas profundezas do Pré Sal que começa na camada de Dom João VI no ano de 1808 até o poço escuro do Sociólogo das Privatizações e dai em diante fechar com as moedas em gotas que são contadas agora. 

Aqui o fim é sempre um recomeço: de benefícios para uns, passeio na prisão para outros, pão e circo midiático aos consumidores do oportunismo caótico e a falsa sensação de justiça e verdade aos que não já não sabem quem esta com a verdade. - Se quem investiga por aportes de benefícios mesmo em nome da justiça ou quem se coloca na condição de vitima com dedo em riste! 

Aqui desde a chegada da família real a corrupção tem viés de investimento, enquanto Saúde, Educação e Moradia despesa do Estado. ''A operação 'Lava Jato' deveria ser chamada de 'Mata Rato' pois há um imenso descontrole secular de roedores devorando a estrutura do Estado, sem estar dentro dele.'' Pois ratos tem em todo lugar de um campo arado para o plantio a um templo onde o demônio é escorraçado. 

A única diferença pode estar nos lugares onde alimentam suas pretensões, por isso uns comem milho, outros caviar, outros pão e circo e outros roem os dedos apontados para o suborno, delato, e o silêncio. Um rato em silêncio é sempre um rato acumulando benefícios. Talvez por isso tenhamos a nítida impressão que após cada tempestade midiática tudo se esfria como uma brisa ética efêmera com sensação de justiça - isso explica por que os ratos se multiplicam em quantidade, qualidade, número, vez, voz, vergonha, escândalos e silêncio! 

Neuri A. Alves 
Professor e Pesquisador.