segunda-feira, 3 de novembro de 2014

NÃO HÁ DEMOCRACIA SEM PARTICIPAÇÃO POPULAR

''Não é os 'Conselhos de Participação Social' que representam uma ameaça a Estado Democrático, mas sim a 'turba' suja e plutocrata que ' ocupa a estrutura legislativa do país.''

Votar contra os 'Conselhos de Participação Social' no governo é votar em favor da ignorância. É deslegitimar uma construção histórica comprovadamente eficaz de participação e cidadania por uma razão obtusa relegada ao fracasso eleitoral nos estados de origem. É preciso dar uma basta nestes sistema de mascataria em que foi transformado a câmara federal dos deputados onde se vota em conformidade com as mazelas que se recebe em troca.

Por isso todo aplauso pela votação contrária aos Conselhos Populares é um abraço no 'senso comum'  de um debate sério e propositivo. O achismo raivoso, nocivo e leviano amordaça a verdade e acaba por esconder o óbvio que esta em nossa  frente. Não faz sentido debater contrariedades com um olhar distante da realidade que esta ao nosso lado, ou em nosso meio social. 

Quem nunca ouviu falar ou participou de Conselho de Escola, Conselhos de Creches, Conselho de Moradores, Conselhos Municipais de Saúde, Cultura, Assistência Social e Transporte. Os Conselhos Universitários, Conselhos Tutelares entre tantos outros conselhos.

Um país que eleva ao legislativo esse tipo de representante político é um país miserável de consciência. Esses ignorantes que votaram contra o Decreto 8.243/2014 (Política Nacional de Participação Social – PNPS), não chegaram ao legislativo em Brasília através de um sorteio 'Rifa' ou jogo de 'Bingo' comunitário. Em grande parcela Eles chegaram até lá por uma ameaça muito maior a democracia participativa que através e a serviço do aparelho de exclusão que tem como combustível a iniciativa privada e os ganchos eleitorais.

Não é os 'Conselhos de Participação Social' que representam uma ameaça a Estado Democrático, mas sim a 'turba' suja e plutocrata que ' ocupa a estrutura legislativa do país e que votou contra o decreto que propunha os 'Conselhos Populares'. São eles próprios a maior das ameaças que se pode ter na democracia.

É preciso lutar até o último grito para que a voz do povo esteja presente nas mais diversas relações de governabilidade de um país democrático fazendo valer a legitimidade dos 'Conselhos de Participação Social'. Pois legitimar esse direito democrático é objetivar o nosso papel de cidadania.

Enquanto alguns gritam pela volta da ditadura, sejamos nós a voz democrática e majoritária dos que buscam ampliar os passos de inserção e liberdade.

Neuri A. Alves - Professor e Pesquisador Licenciado em Filosofia e História. - Curioso do mundo!

sábado, 1 de novembro de 2014

QUÃO “CORDIAL” É O POVO BRASILEIRO?

''Quem seguiu as redes sociais, se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. (...) Não devemos nem rir nem chorar, mas procurar entender.''

Dizer que o brasileiro é um “homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro: “Raizes do Brasil” de 1936 que lhe dedica o inteiro capítulo Vº. Mas esclarece, contrariando Cassiano Ricardo que entendia a “cordialidade”como bondade e a polidez, que “nossa forma ordinária de convívio social é no fundo, justamente o contrário da polidez”(da 21ª edição de 1989 p. 107). Sergio Buarque assume a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de coração. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio. Bem diz o autor:”a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107).

Escrevo tudo isso para entender os sentimentos “cordiais” que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve por uma parte declarações de entusiasmo e de amor até ao fanatismo para os dois candidatos e por outra, de ódios profundos, expressões chulas por parte de ambas as partes do eleitorado. Verificou-se o que Buarque de Holanda escreveu: a falta de polidez no nosso convívio social.

Talvez em nenhuma campanha anterior se expressaram os gestos “cordiais” dos brasileiros no sentido de amor e ódio contidos nesta palavra. Quem seguiu as redes sociais, se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV. Por exemplo, que um dos candidatos chame a Presidenta do país de “leviana e mentirosa” se inscreve dentro desta lógica “cordial”, embora revele grande falta de respeito diante da dignidade do mais alto cargo da nação.

Para entender melhor esta nossa “cordialidade” cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão, tendo que assumir as formas políticas, a lingua, a religião e os hábitos do colonizador português. Em consequência criou-se a Casa Grande e a Senzala. Como bem o mostrou Gilberto Freyre não se trata de instituições sociais exteriores. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado os senhor que tudo possui e manda e do outro o servo que pouco tem e obedece ou também a hierarquização social que se revela pela divisão entre ricos e pobres. Essa estrutura subsiste na cabeça das pessoas e se tornou um código de interpretação da realidade e aparece claramente nas formas como as pessoas se tratam nas redes sociais.

Outra tradição muito perversa foi a escravidão. Cabe recordar que houve uma época, entre 1817-1818, em que mais da metade do Brasil era composta de escravos (50,6%). Hoje cerca de 60% possui algo em seu sangue de escravos afro-descendentes. O catecismo que os padres ensinavam aos escravos era “paciência, resignação e obediência”; aos escravocratas se ensinava “moderação e benevolência” coisa que, de fato, pouco se praticava.

A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro que devia sempre servir. Pagar o salário é entendido por muitos ainda como uma caridade e não um dever, porque os escravos antes faziam tudo de graça e, imaginam que devem continuar assim. Pois desta forma se tratam, em muitos casos, os empregados e empregadas domésticas ou os peões de fazendas. Ouvi de um amigo da Bahia que escutou uma senhora, moradora de um condomínio de alta classe dizer:”os pobres já recebem a bolsa-família e além disso creem que têm direitos”. Eis a mentalidade da Casa Grande.

As consequências destas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos, não tanto de conflito de classe (que também existe) mas antes de conflitos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino é ignorante, porque vive no semi-árido sob pesados constrangimentos ambientais, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do nordeste nos vêm grandes escritores, poetas, atores e atrizes. No Brasil de hoje é a região que mais cresce economicamente na ordem de 2-3%, portanto, acima da média nacional. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.

Todas essas contradições de nossa “cordialidade” apareceram nos twitters, facebooks e outras redes sociais. Somos seres contraditórios em demasia.

Acrescento ainda um argumento de ordem antropológico-filosófica para compreender a irrupção dos amores e ódios nesta campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade frontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de sim-bólica (que une) e de dia-bólica (que divide). Os modernos falam que somos simultaneamente dementes e sapientes (Morin), quer dizer, pessoas de racionalidade e bondade e ao mesmo tempo de irraconalidade e maldade. 

A tradição cristã fala que somos simultaneamente santos e pecadores. Na feliz expressão de Santo Agostinho: cada um é Adão, cada um é Cristo, vale dizer, cada um é cheio de limitações e vícios e ao mesmo tempo é portador de virtudes e de uma dimensão divina. Esta situação não é um defeito mas uma característica da condition humaine. Cada um deve saber equilibrar estas duas forças e na melhor das hipóteses, dar primazia às dimensões de luz sobre as de sombras, as de Cristo sobre as do velho Adão.

Nestes meses de campanha eleitoral se mostrou quem somos por dentro, “cordiais” mas no duplo sentido: cheios de raiva e de indignação e ao mesmo tempo de exaltação positiva e de militância séria e auto-controlada.

Não devemos nem rir nem chorar, mas procurar entender. Mas não é suficiente entender; urge buscar formas civilizadas da “cordialidade” na qual predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeite o legítimo espaço de uma oposição inteligente e se acolham as diferentes opções políticas. 

O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos (guerras de grande devastação e a grave crise no sistema-Terra e no sistema-vida), num projeto por todos assumido para que se crie o que se chamou de o Brasil como a “Terra da boa Esperança”(Ignacy Sachs).

Leonardo Boff escreveu “O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na consstrução da realidade”, Vozes, Petrópolis 1998.

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com
Publicado 31/10/2014